Fase 1

Arquitetura

Para estabelecer elementos mínimos para o desenho do protótipo, a equipe do projeto realizou uma incursão pela literatura da área de e-health, numa tentativa de encontrar referências para apoiar a estruturação de um aplicativo voltado a população afetada por doenças raras. Apesar da enorme produção no campo de registro de pacientes e de websites para apoiar o diagnóstico e o acompanhamento de afecções herdadas, crônicas e/ou degenerativas raras (1-10), existe somente um aplicativo, em baixo nível de maturidade, ofertado para ambientes Android. Trata-se do aplicativo Orpha.Net[1], desenvolvido pelo Institut national de la santé et de la recherche médicale (INSERM), na França, como forma de veicular as informações depositadas no OrphaData[2].

Além desta iniciativa, cabe salientar que há outros três repositórios interoperantes: (a) International Rare Diseases Research Consortium (IRDiRC)[3]; (b) o RD-Connect[4]; e, (c) o NIH/NCATS Global Rare Diseases Patient Registry Data Repository/GRDR[5]. Estas plataformas constituem um projeto global de infraestrutura que liga bases de dados, registros de pacientes, dados de biobancos, bases de bioinformática clínica e dados de projetos genoma, bem como informações sobre protocolos clínicos, ensaios clínicos e locais de pesquisa/tratamento. A estrutura geral destas iniciativas, que envolve tentativas de harmonização da tipologia de doenças raras, pode ser observada na Figura 1.

A proposta de do protótipo RarasNet parte desta perspectiva internacional, uma vez que é imprescindível que haja interoperabilidade entre as bases de dados produzidas no Brasil e aquelas oriundas das iniciativas anteriormente citadas. Isso significa que é necessário adotar os international standards[6] para geração de documentos XML que povoarão a base de dados no backend do RarasNet. Outro requisito para a construção do aplicativo é sua interoperabilidade com as bases de dados produzidas no âmbito do DataSUS, a fim de que dados epidemiológicos e de outros aspectos de saúde pública seja facilmente disponibilizados ao público.

 

Figura 1: Estrutura geral das bases de dados internacionais de doenças raras. (Fonte: HUMAN MUTATION, Vol. 33, No. 5, 803–808, 2012)

 

Tendo em vista estas duas premissas, e adotando uma lógica de Design Centrado no Usuário e de boas práticas para desenvolvimento de aplicativos para Android[7], optou-se pelo desenvolvimento de um aplicativo modularizado e escalonável, com arquitetura cliente-servidor (Figura 2), que siga os padrões internacionais de estruturas de dados e que garanta interoperabilidade entre bases de dados de doenças raras.

Optamos, nesta etapa inicial do projeto, em representar a arquitetura do sistema mediante a elaboração de um diagrama de casos de uso. Este diagrama será aperfeiçoado à medida que os requisitos forem elencados e validados. Por se tratar de um protótipo, tem-se portanto a possibilidade latente de modificação dos seus requisitos funcionais e dos perfis de usuários que o utilizarão. Desta forma, entendeu-se que este tipo de diagrama seria adequado para uma abordagem inicial em termos de estruturação, afim de prover flexibilidade para a evolução do projeto. Ademais, o desenvolvimento deste artefato facilitará o processo de testes do aplicativo.

 

Figura 2: Visão geral de usuários, processos e bases de dados do aplicativo RarasNet.

A utilização das principais funcionalidades do protótipo (cadastros, consultas e manipulações de dados) pode ser vista sob a ótica da arquitetura cliente-servidor, como já afirmado. Será função central dos servidores remotos o processamento de requisições dos smartphones clientes, onde ocorrerão diversos tipos de interação com os bancos de dados do sistema.

Em paralelo, nas consultas poderão ocorrer requisições a bancos de dados internacionais, a fim de incrementar o nível de confiança das informações solicitadas através de saídas resultantes de buscas de meta-análises, protocolos clínicos e consensos intenacionais

 

  • DECOMPOSIÇÃO DO PROTÓTIPO EM BASES DE DADOS

 

Em função da especificidade dos campos de cada registro no aplicativo, optou-se por dividir o banco de dados do aplicativo nas tabelas descritas abaixo, podendo haver adequações ao longo do processo de construção do protótipo (Figura 3). A estrutura de cada tabela será posteriormente descrita. Num primeiro momento, será adotada a estrutura de dados estabelecida pelos consórcios internacionais de doenças raras, a fim de que, posteriormente, possa existir interoperabilidade entre a bases de dados.

 

Figura 3: Diagrama esquemático das bases de dados utilizados pelo RarasNet e suas relações.

  • BD 1 – Doenças:  Base de dados constituída por documentos XML importados de bases de dados internacionais sobre doenças raras, com tipologia nosológica padronizada por consórcio internacional (OrphaData). A interoperabilidade entre as bases internacionais e a base brasileira de doenças raras, um dos objetos deste projeto, será estabelecida mediante convênio cuja negociação encontra-se em curso. Cabe salientar que as bases são abertas e de uso livre.
  • BD 2 – Cadastro de pacientes:  Base de dados constituída por cadastro de pacientes. Pretende-se que a base funcione como um sistema de auto-notificação de doenças raras a fim de compor um censo brasileiro de doenças raras.
  • BD 3 – Cadastro de cuidadores: Base de dados constituída por cadastro de pacientes.
  • BD 4 – Cadastro de associações: Base de dados constituída por cadastro de associações de pacientes.
  • BD 5 – Cadastro de gestores de unidades de saúde:  Base de dados constituída por cadastro de gestores de unidades de saúde que forneçam aporte, em qualquer nível de complexidade, aos usuários do SUS que sejam acometidos por doenças raras. Esta base pode fazer parte do sistema de acreditação de estabelecimentos de saúde para o tratamento de doenças raras previsto nas Portarias MS 199 e 981 de 2014.
  • BD 6 – Cadastro de centros de referência:  Base de dados constituída por registro de unidades de saúde que atendam doenças raras. Esta base pode fazer parte do sistema de acreditação de estabelecimentos de saúde para o tratamento de doenças raras raras previstos nas Portarias MS 199 e 981 de 2014.
  • BD 7 – Cadastro de profissionais de saúde:  Base de dados constituída por cadastro de profissionais de saúde interessados no tema das doenças raras.
  • BD 8 –  Cadastro de especialistas: Base de dados constituída por cadastro de profissionais de saúde especialistas em doenças raras.

Além das bases de dados relativas aos dados de cadastro dos usuários na plataforma, pretende-se constituir, seguindo os padrões estabelecidos pela BVS/BIREME, bases de dados com evidências científicas, protocolos, condutas, dados de medicamentos, informações sobre exames, etc. Estes elementos constituem o cerne do aplicativo e estão em processo de construção através de ações do Observatório de Doenças Raras da UnB.

  • BD 9 – Base de dados de sínteses de evidências: esta base de dados será resultado do processo de trabalho cooperativo entre o Observatório de Doenças Raras e a EvipNet
  • BD 10 – Bases de dados de evidências: artigos, consensos, teses, etc.
  • BD 11 – Base de dados epidemiológicos: dados extraídos do Datasus e da OprhaNet
  • BD 12 – Bases de dados de procedimentos, protocolos, condutas e terapêutica: esta base será povoada, preferencialmente, pelos protocolos para tratamento de doenças raras estabelecidos pela CONITEC[8].
  • BD 13 – Base de dados de medicamentos órfãos: esta base será povoada por dados de medicamentos e insumos para tratamento de doenças raras aprovados para uso pelo SUS.
  • BD 14 – Base de dados de procedimentos multidisciplinares: dieta, conduta fisioterápica, etc.
  • DECOMPOSIÇÃO EM MÓDULOS

A estrutura de módulos do aplicativo ainda está em processo de construção, uma vez que a avaliação de requisitos está em curso. De maneira geral, os módulos são:

  • Módulo de menu
  • Módulo de busca
  • Modulo de cadastro
  • Módulo de content provider
  • Módulo de manipulação de banco de dados

Nos futuros relatórios serão disponibilizados detalhes de código, definições das activities, etc.

  1. Requisitos de hardware e software

Para instalação do aplicativo RarasNet o usuário deverá possuir um dispositivo com Sistema Operacional Android, tendo como versão mínima a 2.3 (Gingerbread, API 9).

A infraestrutura do servidor que hospedará as bases de dados é composta de Sistema Operacional RED HAT, Versão 6.6, com Base de dados MySQL, versão 5.5.39 e PHP, versão 5.3, rodando em hardware PowerEdge da Dell. Esta infraestrutura está abrigada na Faculdade de Ciências de Saúde da UnB e conta com link de alta velocidade da Rede Giga Candanga.

Para o ambiente de desenvolvimento do aplicativo, a equipe utilizará a IDE Android Studio, em sua versão 1.0.2, com Java JDK 7, rodando nos notebooks adquiridos especificamente para o projeto, os quais possuem Sistema Operacional Windows 8.1 com suficiente memória e velocidade de processamento para testes. A ferramenta de versionamento escolhida para o projeto foi o GitHub.

Para os testes do protótipo, serão utilizados os smartphones adquiridos para o projeto, além do emulador de smartphones integrado ao Android Studio.

 

REFERÊNCIAS

  1. Richesson RL, Lee HS, Cuthbertson D, Lloyd J, Young K, Krischer JP. An automated communication system in a contact registry for persons with rare diseases: scalable tools for identifying and recruiting clinical research participants. Contemporary clinical trials. 2009;30(1):55-62.
  2. Forrest CB, Bartek RJ, Rubinstein Y, Groft SC. The case for a global rare-diseases registry. Lancet. 2011;377(9771):1057-9.
  3. Rubinstein YR, Groft SC, Bartek R, Brown K, Christensen RA, Collier E, et al. Creating a global rare disease patient registry linked to a rare diseases biorepository database: Rare Disease-HUB (RD-HUB). Contemporary clinical trials. 2010;31(5):394-404.
  4. Allwes D, Popovich ML. Empowering patients and researchers through a common health information registry: a case example of adrenocortical carcinoma patients and researchers. Studies in health technology and informatics. 2007;127:219-28.
  5. Laverty A, Jaffe A, Cunningham S. Establishment of a web-based registry for rare (orphan) pediatric lung diseases in the United Kingdom: the BPOLD registry. Pediatric pulmonology. 2008;43(5):451-6.
  6. Taruscio D, Kodra Y, Ferrari G, Vittozzi L, National Rare Diseases Registry Collaborating G. The Italian National Rare Diseases Registry. Blood transfusion = Trasfusione del sangue. 2014;12 Suppl 3:s606-13.
  7. Daneshvari S, Youssof S, Kroth PJ. The NIH Office of Rare Diseases Research patient registry Standard: a report from the University of New Mexico’s Oculopharyngeal Muscular Dystrophy Patient Registry. AMIA Annual Symposium proceedings / AMIA Symposium AMIA Symposium. 2013;2013:269-77.
  8. Mazzucato M, Visonà Dalla Pozza L, Manea S, Minichiello C, Facchin P. A population-based registry as a source of health indicators for rare diseases: the ten-year experience of the Veneto Region’s rare diseases registry. Orphanet journal of rare diseases. 2014;9:37-.
  9. Richesson RL, Sutphen R, Shereff D, Krischer JP. The Rare Diseases Clinical Research Network Contact Registry update: features and functionality. Contemporary clinical trials. 2012;33(4):647-56.
  10. Touitou I, Hentgen V, Kone-Paut I, French Reference Centre for Auto-Inflammatory D. Web resources for rare auto-inflammatory diseases: towards a common patient registry. Rheumatology. 2009;48(6):665-9.

 

[1] https://play.google.com/store/apps/details?id=com.mh.insermorphanet&hl=pt_BR

[2] http://www.orphadata.org/cgi-bin/index.php/

[3] http://www.irdirc.org

[4] http://rd-connect.eu

[5] http://www.ncats.nih.gov/research/rare-diseases/grdr/grdr.html

[6] http://www.orphadata.org/cgi-bin/docs/userguide2014.pdf

[7] http://developer.android.com/design/patterns/app-structure.html

[8] http://conitec.gov.br/index.php/protocolo-clinico